A Peste

Detalhe de “Transfiguration”, de Sócrates Magno Torres

Este artigo foi publicado, originalmente, na coluna “Notas para um mundo transtornado”, do site de Calibán. Clique aqui para acessá-la.

por Raya Angel Zonana.

Preparávamosa edição de Calibán.RLP para o Congresso de Setembro de 2020 da Fepal, Fronteiras, quando repentinamente fomos atingidos pela Peste.

Um minúsculo ser, mais do que mínimo, nos impõe um mundo novo e questiona nossas fronteiras – algumas construídas a duras penas –, necessárias para transitarmos pela vida.

“Sem fronteiras!” – é o que nos diz este vírus que atravessa países e circula entre as pessoas sem pudor e em todas as direções, impondo, no entanto, enormes fronteiras entre cada um de nós. Somos todos agentes e sujeitos de um possível contágio.

Em 1947, no difícil pós-guerra europeu, Albert Camus publica A Peste. Numa cidade imaginária, Oran, construída de costas para o mar, ele propõe que “uma maneira de travar conhecimento com uma cidade é descobrir como lá se trabalha, como se ama e como se morre.”

Em 2020, num mundo construído de costas para tudo que o mar possa representar de recursos naturais e vitais, percebemos com maior agudeza como amamos, como trabalhamos e como morremos.

Vivemos neste instante da humanidade algo inusitado, inesperado e imaginado somente como uma ficção científica apavorante. Difícil acordar, e ao abrir os olhos, perceber que, mais uma vez, a realidade vai além da ficção. Muito além de nossa imaginação, tudo que estamos vivendo é “de verdade”!

Amar, trabalhar e morrer são também os paradigmas que aprendemos, psicanalistas que somos, a ler nos textos de Freud como formas de observar e compreender o humano, tomados pelas pulsões de Eros e Thanatos, entre o princípio do prazer e o princípio da realidade, em busca de criar uma civilização que nos permita transitar pela vida em comunidade, ainda que às custas de um intenso “mal estar”.

Mais do que nunca, entendemos agora, o que é realmente uma civilização e o que é viver em comunidade. Somos perigosos um para o outro como transmissores do vírus, porém de cada um de nós depende a vida do outro.

Como amar, trabalhar e morrer neste Novo Mundo invadido pelo coronavírus?

Continuaremos de costas para o mar? De costas para o nosso próprio planeta? De costas para este outro ao mesmo tempo nosso inimigo e nosso possível salvador?

Teremos possibilidades de criar novos paradigmas? Ou, quem sabe são os mais antigos paradigmas que agora teremos que rever e retomar?

Escutarmos um ao outro, impregnados todos que estamos pela angústia e pelo medo que nos acometem, é talvez o que, como início, possamos fazer.

Ler o que o outro pensa permite que nos sintamos um pouco menos solitários e vulneráveis em nosso real e imenso desamparo.

Assim, passaremos a publicar textos de colegas e de pensadores da cultura como forma de tecermos uma rede de escrita na qual possamos nos embalar nestas noites insones, nas quais a imaginação ora caminha aos galopes, ora se paralisa assustadoramente.

Vamos, aos poucos, com algumas histórias aqui publicadas, contar a história deste momento, impensável, Unheimlich, e viver o efêmero em palavras que talvez possam perpetuar o humano.

Raya Angel Zonana, Editora-chjefe de Calibán, RLP.
Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo.

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