XXVII Congresso Brasileiro de Psicanálise

O Estranho – Inconfidências

Só raramente um psicanalista se sente impelido a pesquisar o tema da estética, mesmo quando por estética se entende não simplesmente a teoria do belo, mas a teoria das qualidades do sentir. (Sigmund Freud, 1919)

Brasil, Minas Gerais, janeiro de 2018: o Conselho Científico da Febrapsi reuniu-se para decidir o tema central do Congresso Brasileiro de Psicanálise de 2019, que ocorrerá de 19 a 22 de junho em Belo Horizonte. A partir das sugestões recebidas de nossas federadas, e tendo como norte a proposição de integrar os vários segmentos que comportam o escopo da psicanálise, chegamos ao consenso da seguinte temática: O estranho – inconfidências.

Sabemos que, no trabalho “O estranho” (1919), Freud propõe-se a refletir sobre os inquietantes caminhos implicados no trânsito entre as instâncias psíquicas, no seu indissociável atrelamento com a força do pulsional – o conhecido, o desconhecido –, que persiste e insiste em se fazer agente dos sucedâneos anímicos.

Nesse sentido, Freud constrói uma interlocução profícua entre a clínica e a cultura, valendo-se do conto de Hoffmann “O homem da areia” – acreditamos que impelido pelo desejo de trabalhar a qualidade da estética que se dirige para além do belo, uma possível estética psicanalítica do horror. O horror remete ao estranhamento do humano diante da constatação da finitude, da transitoriedade, da passagem do tempo, enfim, da incompletude, que o complexo de castração comporta de maneira incisiva: marca do corte, que vai sendo teatralizada, entre ser reconhecida e não conhecida, na vida fantasmática dos personagens do conto de Amadeus Hoffmann, gerando dúvidas quanto à veracidade dos fatos: fantasia ou realidade? 

Nas linhas e entrelinhas da tensa narrativa do Das Unheimliche (1919), o escritor/analista Freud, tal como os escritores criativos, vai convidando o leitor a deixar-se levar por essa experiência estética: a importância de viver em si essa peculiar sensação, que remete a sua pretensão, por essas trilhas, de construir um conceito específico. A qualidade do sentir no intercâmbio entre o repulsivo e o doloroso gera estranhamentos e anuncia a problemática da eterna repetição do mesmo, explicitando as incongruências com a repetição do diferente e do equivalente.

É o estranho se apresentando em suas diferentes roupagens, desacomodando a lógica hegemônica do princípio do prazer, permitindo que venha à luz o secreto, de forma clandestina, com seus inebriantes mistérios. Um convite para explorar também as origens da psique: “Das Ding”. Nosso enigmático protagonista desliza em meio a figuras – Pai/Coppelius; Olímpia/Clara; Coppola/Spalanzani – com os quais estabelece uma relação de complementariedade, e dão voz ao conhecido/desconhecido em si: revelando o duplo, em seu aspecto protetor, garantia de viabilizar uma existência para Eu, e o tanático, quando da sua persistência não metabolizada (sombra do objeto?).

Por esses caminhos a temática da cisão, o mais além do recalque, se presentifica. A renegação começa a desenhar o seu lugar na estruturação anímica: enérgico desmentido do poder da morte (Rank, 1919). Diante dessas considerações poderíamos compreender o duplo, em seu verso e reverso, como tendo seu destino determinado pela pulsão de apoderamento das figuras parentais? Império do ser em detrimento do ter? Permanência e transitoriedade tecendo o entrelaçamento entre Eros e destrutividade? O além inscrevendo sua desconhecida história?

Tendo esse pensar interrogativo como sinalizador, encontramos no paradoxal termo inconfidências – legado de uma história de luta pela liberdade, que teve por cenário a terra mineira – uma bela forma de apresentação da força desconcertante propulsora de transformações do estranho que nos habita: dessemelhanças que propiciem o trabalhar em prol da alteridade. Como diz Freud, citando Schelling, unheimlich é tudo “que deveria ter permanecido secreto e oculto, mas veio à luz” (1919). Um vir que incita o desassossego, ao mesmo tempo potencializa as condições para que o novo se crie e se recrie a partir do antigo.

Nesse sentido a temática do estranho, com sua virtual capacidade de propiciar inconfidências, revela a vocação da psicanálise como agente de ruptura. Instauração, ou ainda, reinstauração de uma prosa científica que deixa pegadas para fundamentar a ideia da Psicanálise com uma Ciência Unheimliche. Sendo assim, o ser estranho com seus estranhamentos constitui o arcabouço teórico/técnico da psicanálise e do vir a ser psicanalista: pertinência ao lugar de eterno estrangeiro, aquele que busca dar voz às múltiplas linguagens dos territórios dos inconscientes.                 

 Em meio às inquietantes turbulências que o ser estranho comporta, convidamos todos os colegas para virem a Belo Horizonte, a fim de efetivarmos um congresso que traduza as aspirações – as diferentes qualidades do sentir – dos psicanalistas brasileiros. Aspirações que nos convocam a participar de múltiplas formas, produzindo ideias, estranhos pensamentos, em consonância e com o pensar freudiano e dos nossos inconfidentes. Nessa rota, que remete ao âmbito de marginal (Freud, 1919), despertar nosso espírito aventureiro (Freud, 1900) ou indiscreto (Freud, 1910), ousar seguir examinando e denunciando o mal-estar que constitui o sujeito e sua ordem cultural. E nesse caminho transpor os limites impostos pelo nosso próprio saber. Contexto propício para estabelecer desdobramentos desse pensar, à luz do nosso tempo: “Das Unheimliche”, 100 anos depois, entre confidências-inconfidências – o desafio está posto.

Aguardamos vocês  

Ignácio Alves Paim Filho

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