Vidas Marcadas

Sobre cada niño se debería poner un cartel que dijera:

Tratar con cuidado, contiene sueños”

Mirko Badiale (filósofo e escritor)

A verdade histórica das crianças e adolescentes, que a partir do nascimento vivem maus tratos, fome, miséria ou injúrias sociais graves, precisa sair da invisibilidade. Destacamos que, desde o início da colonização a população mais atingida e marginalizada pelas desigualdades estruturais foram os negros, pardos e indígenas. Tais situações necessitam ser assumidas como traumáticas e acolhidas pela psicanálise como objeto de preocupação.

Freud salienta que toda a experiência primitiva, a qual a criança ainda não tem condições de dar sentido, exige ser significada em algum momento posterior. Para isso, se faria necessário um período de incubação ou latência, no qual o evento ficaria esquecido até um novo acontecimento surgir, permitindo a reemergência do primeiro. Este período refere-se ao tempo necessário para a revivência do trauma a posteriori, que aporta a possibilidade de que o real sexual da primeira infância – sempre em excesso, possa ser organizado como motor de desejos e criação de recursos simbólicos para sua ligadura.

Bebês, crianças e adolescentes que são injustiçados socialmente, sofrem repetidas violências insuportáveis na ordem do real. Embora deva-se avaliar caso a caso, pode-se supor a existência de uma lógica temporal diversa do exposto sobre o trauma na teoria freudiana. Inexiste o período de latência. Os traumas são cumulativos e se repetem infinitamente vida afora, podendo afetar tanto a constituição de circuitos desejantes, quanto a  complexização no psíquico  e no simbólico.

Essa realidade pode obstruir em intensidade variável a constituição da subjetividade e os recursos representacionais simbólicos de si e do mundo. A condição de Ser fica deslegitimada, impondo-se o rompimento de laços sociais e a desfiliação na cultura em um inevitável grau de efeitos sobre os sujeitos. Tais efeitos incluiriam desde a apatia até gradientes extremos de frieza e violência.

A América Latina requer terapêuticas psicológicas urgentes voltadas para os bebês, crianças e adolescentes que são atingidos por este drama, além das medidas preventivas possíveis. Faz-se necessário políticas públicas de qualidade nas quais a presença da psicanálise pode se fazer sentir.  Este trabalho precisa ser estruturado de forma transdisciplinar, unindo todos os movimentos de instituições públicas e privadas, que se comprometam a administrar projetos sociais envolvidos com essa realidade. 

Como a psicanálise poderia estar implicada com estas questões? Podemos contribuir com:

– o referencial teórico;

– a escuta clínica disponível a compreender a dor, as éticas diversas, os códigos e os valores, que permeiam as diferentes histórias de vida;

– oferecer às políticas públicas um olhar sobre a complexidade da subjetivação;

– a partir deste olhar sobre um sujeito, significar transformações que se estabelecem no coletivo através da escuta em rodas de conversa;

– processar lógicas desconhecidas com um olhar respeitoso;

– a aprender com a experiência dos que habitam diferentes territórios.

Acreditamos que exista um potencial de saúde imponderável no ser humano, mesmo com histórias dramáticas. Contamos com este potencial.

Temos compromisso com toda situação que gere sofrimento psíquico e não podemos mais cruzar os braços frente à dor da Infância e da Adolescência em situações de marcada injustiça social. 

Essas crianças são nossas! Filhos da América Latina!

Epílogo – Observamos, durante esse ano, com a ocorrência da Covid-19, que os danos já existentes agravaram-se para os jovens e crianças que já tinham suas vidas marcadas. Suas famílias tornaram-se mais sofridas.

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