Uma oportunidade de debate crítico acerca de nossa própria história

por Daniel Senos*

Qual é a necessidade de revisitar os arquivos da psicanálise na América Latina? Por que é preciso retomar a memória da trajetória do movimento psicanalítico e de seus protagonistas no nosso continente? Qual é a importância de promover, disseminar e debater a nossa história em suas mais diversas dimensões, psicanalíticas, sociais, políticas, econômicas e históricas?

Optamos pelo termo arquivo para o título de nossa coluna em função das importantes contribuições críticas de Jacques Derrida (1995/2001) a respeito do mesmo, que também é caro aos psicanalistas, uma vez que leva em consideração as contribuições de Freud a respeito da problemática da verdade material e histórica (Freud, 1937/2011). Derrida elucida que o arquivo funciona de forma contraditória, uma vez que é promovido pela tendência ao esquecimento e ao apagamento. Tal contradição permite a constante renovação dos processos de arquivamento; logo, faz-se necessário um constante trabalho do arquivista em acolher a repetição que insiste no arquivo e deslocá-la para o futuro, promovendo o desmonte da fixidez e o deslizamento do
estatuto de uma verdade material para uma verdade histórica (Derrida, 1995/2001).

Derrida demonstra que o conceito de arquivo, em sua acepção clássica, seria dotado de uma condição fixa e estática na sua dimensão ontológica, dotado de uma objetividade do registro dos fatos históricos. Tal concepção, posteriormente criticada pelo autor, prevê que o arquivo seria constituído apenas pelo referencial do passado, descartando o presente e o futuro e com a pretensão de que o registro em si não seria passível de lacunas ou esquecimento. (Derrida, 1995/2001). Assim, nessa definição clássica, o arquivo seria baseado na experiência de rememoração, baseada no tempo passado, e definiria uma historiografia de uma determinada tradição (Birman, 2008).

Acerca dessa problemática, Derrida propõe que o arquivo seja compreendido de forma descontínua, atravessado pelo esquecimento e pelo que ele chamou de mal de arquivo. Este seria a condição através do qual o processo de arquivamento pudesse continuar, através do esquecimento dos traços, que permite sua consequente renovação. O mal de arquivo, em seu funcionamento de silenciamento e repetição, é aproximado pelo autor ao conceito de pulsão de morte proposto por Freud (1920/2010), cuja função é descrita por Derrida como arquivolítica: a manutenção do arquivo se dá a partir da iminência de sua destruição (Derrida, 1995/2001).

Gostaríamos também de expor as contribuições do historiador Eric Hobsbawn a respeito da responsabilidade dos fatos históricos no desenvolvimento de ideologias e radicalismos. Hobsbawn (1997/2013) discorre sobre o peso que a história tem para a construção de ideologias nacionalistas, étnicas ou fundamentalistas, na medida que, ao haver um passado insatisfatório é possível que o mesmo seja inventado à serviço das ideologias diversas supracitadas. Essas não se preocupam com a legitimidade dos fatos históricos, mas sim em construir um passado glorioso que funcione como pano de fundo para justificar o fenômeno ideológico. Nesse sentido, o autor defende que os historiadores desempenham o papel de atores políticos, pois possuem uma grande responsabilidade pelos fatos históricos e pela crítica do abuso político-ideológico da
história.

Nessa direção, Hobsbawn (1997/2013) também ressalta que tais abusos ideológicos são construídos prioritariamente a partir de anacronismos, que se fundamentam na interpretação equivocada de fatos históricos passados a partir de valores de outra época. A periculosidade desse tipo de fenômeno é grande, uma vez que operam na substituição da história pelo mito e a invenção e determinam de que forma será narrado para a posteridade. Cria-se, portanto, as bases para a construção de certezas e crenças baseadas na supremacia de um grupo social sobre o outro, “Somos diferentes e melhores do que os Outros”, conforme observamos em variados discursos atualmente.

Dessa forma, acreditamos que colocar em relevo os arquivos da psicanálise na América Latina consiste em um ato político de grande importância para o movimento psicanalítico, uma vez que permite a promoção de uma oportunidade de debate crítico acerca de nossa própria história. Também acreditamos que a exposição e discussão em espaços potentes permitem que não nos entreguemos ao esquecimento de nossas raízes, assim como problematiza as fundamentações inspiradas por anacronismos históricos, que por sua vez servem como pilares para radicalismos e preconceitos no movimento psicanalítico. Somos responsáveis pela nossa história e cabe a nós a função de mantê-la em constante renovação.

*Daniel Senos é Psicólogo; Doutorando em Psicologia Clínica PUC-Rio; Mestre em Teoria Psicanalítica PPGTP/UFRJ; Especialista em Psicologia Clínica com Crianças PUC-Rio; Candidato do Instituto de Psicanálise da Sociedade Brasileira de Psicanálise do Rio de Janeiro.

Referências Bibliográficas

  1. Birman, J. (2008). Arquivo e Mal de Arquivo: uma leitura de Derrida sobre Freud. Natureza humana 10(1), 105-128. Recuperado em 10 de março de 2019, http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S151724302008000100005&lng=pt&tlng=pt.
  2. Derrida, J (2001) Mal de arquivo: uma impressão freudiana. Rio de Janeiro: Relume Dumará (original publicado em 1995).
  3. Freud, S. (2010) “Mas allá del principio de placer” In. Obras Completas Vol. XVIII. Buenos Aires: Amorrortu, 2010 (original publicado em 1920).
  4. Freud, S. (2011) “Construcciones en el análisis” In: Obras Completas vol. XXIII.  Buenos Aires: Amorrortu, 2010 (original publicado em 1937).
  5. Hobsbawn, E. (2013) Sobre história. São Paulo: Companhia das Letras (original publicado em 1997).

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