Semear: do pedregulho à horta

O Semear tem a alegria de contar com a contribuição de Hemerson Ari Mendes, Psicanalista brasileiro, membro da Sociedade Psicanalítica de Pelotas que tem na escrita uma de suas formas de se comunicar e dialogar com o público geral. Hemerson nos traz um texto bastante sensível e profundo através de enlaces entre fragmentos de suas memórias e experiências afetivas. Assim nos fala sobre a importância dos afetos entre adultos, sejam esses avós, pais ou psicanalistas e as crianças e os adolescentes. 

Convidamos a todos para lerem o texto e Hemerson, bem como para que façam chegar esse escrito a outras pessoas, compartilhando esta postagem.

Semear: do pedregulho à horta

Hemerson Ari Mendes
Psicanalista – Sociedade psicanalítica de Pelotas – Brasil

Crianças e adolescentes sofrem os maiores danos quando expostos às vulnerabilidades sociais. Antes de intervenções profissionais, a presença de adultos com disponibilidade afetiva, continência e capacidade de pensar é o melhor antidoto; eles podem transformar vulnerabilidades em potencialidades: uma boa tradução da função psicanalítica.

Leonardo, meu avô, era semianalfabeto; contudo, a ignorância não era maior que o coração. Na infância, eu o acompanhava até o lugar que chamávamos de chácara. Pessegueiros, amoreira e laranjeira; ciprestes dividindo o gramado; no limite inferior, um riacho e uma fonte de água mineral, decantada como preciosidade; contígua, a mata da montanha. Era a minha Macondo, aquela “aldeia (…) à margem de um rio de águas diáfanas que se precipitavam por um leito de pedras polidas, brancas e enormes como ovos pré-históricos”.

Depois de quatro décadas, resolvi revisitar a chácara. Devastador: o riacho, era um banhado; os ciprestes, pinus vadios; os pessegueiros desapareceram; a amoreira estava morta; a laranjeira – exceção para confirmar a regra – seguia garbosa e estéril; o gramado, pedregulhos recobertos por capim; a montanha, um barranco sem vegetação. A fonte, um olho d’água – sobrevivemos porque o amor não era dos tempos do cólera.

A visita resgatou uma lembrança reprimida em uma reentrância da mente. Durante um período, meu avô preparava uma mamadeira matinais e pedia para eu levar a um casebre vizinho. Lá, eu encontrava uma menina, adolescente – entregava a mamadeira para que alimentasse sua filha recém-nascida. Em uma manhã, a menina-mãe, chorando, com a criança no colo, agradeceu-me e disse que não precisava mais. Foi meu primeiro contato com a morte.

Entretanto, a mente/disponibilidade afetiva do meu avô vacinou-me; transformou a pequena horta em um latifúndio; a mandioca cozida com molho na maior das iguarias. Suas lágrimas, ao receber/despedir-se dos netos, nos transformava em especiais. Sua generosidade, associada à capacidade de atentar ao que acontecia além do seu cercado, emprestava uma riqueza que nos protegia das privações/asperezas da realidade.

Avós e seus equivalentes, assim como psicanalistas e poetas podem transformar barrancos pedregosos, cercados pela pobreza e ameaças internas/externas, em particulares Macondos mentais. Cada um a seu modo ajudam no resgate das boas lembranças, atitudes e generosidades, alimentos afetivos para a longa jornada do viver; além disso, podem ressignificar, (re)criar e/ou estimular experiências para serem compartilhadas com os que virão. Essas são algumas das inúmeras possibilidades/potencialidades das relações suficientemente boas entre os familiares, suas crianças, psicanalistas  e demais bons objetos – os quais, igualmente, são frutos/matéria deste mesmo processo.   

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