Entrevista com Enrique Torres

Detalhe da capa do livro “Ficciones”, de Jorge Luis Borges

“Como leitor, não me canso de fadigar os textos em busca do momento de descobrir a habilidade do escritor para nos dar o espanto de um milagre estético.”

Enrique Torres é membro da Asociación Psicoanalítica de Córdoba (APC). A partir de sua grande trajetória como docente, tem transmitido seu saber e verdade sobre a psicanálise misturados a um acervo cultural e literário, que lhe permite acertar o alvo com ditos e frases populares que possibilitam sair da ficção em que todos os sujeitos nos metemos. Realiza deste modo um jogo necessário entre ficção, saber e verdade.

Entrevistado por Tiago Mussi, Daniel Senos, Alejandra Giraldez, Lorena Polo, Soledad Sosa y Veronica Vigliano

1- Qual relação você encontra entre literatura e psicanálise?

Não é surpreendente que Freud tenha se mostrado ele mesmo “singularmente impressionado” quando, ao ler seus primeiros registros, lhe pareceram mais relatos novelescos que escritos rigorosos e exatos da ciência (Caso Elisabeth, ‘Epicrísis’, Psicoterapia da histeria). Havia desistido tempos atrás de sua inclinação pelas humanidades para aderir a uma medicina, já em sua época, ávida de rigor científico, mas seu trato com verdades incômodas em sua prática o trarão de volta a leituras cultivadas desde a juventude. Ambas vocações o acompanharão por todo resto do caminho desde que se propôs dar à verdade, vislumbrada nos relatos de suas histéricas e nas páginas de escritores de todas as épocas, o suporte de um saber consistente que tornou duradouro sua descoberta e concedera a ele um direito de admissão no campo científico. Uma maneira possível – e muito incompleta – de seguir as pegadas da rota freudiana no que se refere ao diálogo entre a literatura e a psicanálise é a relação entre verdade e saber. Em seu afã para juntar esse dois componentes em um conjunto integrado, e julgando cada um deles imprescindível para o outro, não se deteve para especificar sua trajetória paralela, essa que, como as retas de mesma qualidade, fazem com que nunca se encontrem ou que somente o façam no infinito. Freud deixou precisamente flutuando a ideia de infinitude em “Análise terminável e interminável”; Lacan, ao contrário, propôs-se encontrar um ponto final ao desenvolvimento da análise, uma culminação que, ainda que parcialmente e sem fundir-se entre si, continha ambas até alcançar uma “verdade…, não sem saber”. Talvez o intangível das paralelas pode se aplicar também a vizinhança estreita entre a psicanálise e a literatura, se julgamos que dificilmente poderíamos imaginá-las, hoje em dia ao menos, uma sem a outra, e que no entanto nunca se confundem.

            Subordinados e tributários da palavra, único precipitado do material que trabalhamos, incluindo a barganha dos silêncios e excluindo o indizível do prazer que não cessa de assediá-la, a fronteira entre saber e verdade precisou antes de tudo que se definisse o território comum desde onde produzem seus efeitos: o Inconsciente. Para apreender o saber que ali é tramado, ignorado por todos e especialmente pelo sujeito que o carrega, foi necessário a criação de fórmulas, essas “poucas fórmulas psicológicas” com as quais Freud construiu o edifício onde alojou em primeiro lugar a histeria, de cujo discurso tomou o grão que inseminara seu próprio saber. Em todas partes encontrava ficções.

2- Como você acredita que influi a literatura de ficção no trabalho do psicanalista?

Em um fórmula imperiosa e atacável sob qualquer ângulo, diríamos que Freud extraiu a verdade dos romances (familiares) que  narravam seus pacientes, apenas distinguíveis dos da literatura, e inventou por sua vez um saber novo para dar à sua descoberta a consistência que a tornaria duradoura. Duradoura e consistente ao mesmo tempo que “no alvo” para o escárnio dos bem pensantes, escandalizados no início porque Freud se atrevera a revelar os meandros do sexo, e mais tarde, mais sabiamente, por se atrever a postular o Inconsciente como um pensamento sem pensador. Pois não há verdade sem sujeito; o saber, ao contrário, pode prescindir dele a tal ponto que Lacan pôde definir o Inconsciente como um saber sem sujeito, formulação solidária da que o pensa “estruturado como linguagem”. Além disso, o que se insinuava desde “A instância da letra” era o caráter escriturário do Inconsciente.

            Os meios acadêmicos da medicina buscaram humilhar Freud, rebaixando-o por ter criado uma obra que fez com que o mundo já não fosse o mesmo, com o sarcasmo de lhe atribuir um prêmio de literatura. Para completar, ele conseguiu: Prêmio Goethe 1930; só o orgulho de haver inventado e de haver vivido para a psicanálise sobrepujava este mais secreto, que aquilatava seu talento literário e seu amor pelas letras. Alguns escritores de renome acrescentaram virulência: Ezra Pound repudiava a obra de Freud e Nabokov encarnava, chamando-o “the vienese Quack” (o charlatão vienense), enquanto a marca do vienense era notada de maneira sensível e reconhecidamente em autores como Elías Canetti, A. Kostler, J. P. Sartre e muitos outros. Mas, de nosso lado, é conhecida a manifesta predileção de Borges por Jung e sua atitude crítica em relação a Freud, relacionando a este último a autoria de uma desalmada mitologia contemporânea que caberia com mais justiça ao primeiro. Basta, no entanto, ler o relato ‘A seita da Fênix’ de Ficções para sentir com que sutileza, e com quanta modesta maestria transmite as dobras, segredos, ubiquidade, mistério e terror que rodeiam a sexualidade sem mencionar sequer uma vez este termo. Não conteve, no entanto, sua animosidade quando soltou em um congresso de analistas uma de suas famosas e mordazes ironias, definindo a psicanálise como “o ramo erótico da literatura fantástica”. Os grandes analistas, por sua vez, nunca escamotearam sua admiração pelos escritores nem silenciaram sobre a dívida que mantiveram com eles; Freud em carta a Arthur Schnitzler o confessa “você sabia intuitivamente – ou melhor como efeito de uma sutil auto-observação – tudo o que descobri graças ao laborioso trabalho sobre os demais”. Lacan se assombrava da penetração com que Margueritte Duras se antecipava a seus próprios desenvolvimentos ao mesmo tempo que acelerava seus passos desde os primeiros que dera em torno da novela da associação livre e a análise de autores e obras literárias até dar, junto a Joyce, com o real disso que não fala: a letra.

            Bem desenterradas as raízes dos campos do saber e da verdade com as ferramentas da decifração e da interpretação, terminava-se por concluir que a verdade tem estrutura de ficção, que diz pela metade e que seu estatuto não é hermenêutico: sua vizinhança com o real estorva seus tratos com o significante, mas lhe confere ao mesmo tempo o poder e a perseverança em insistir sempre e encontrar, entre os vereditos da linguagem, o modo de se fazer ouvir… entrelinhas. E uma das coisas que deixa ouvir é, precisamente, que o saber… não é tudo, que o mesmo está cercado por uma verdade que denuncia que é impossível que o saber conheça a si mesmo, e que, desde a repressão primária, cada um de nós vive com um saber-a-menos. Este menos do saber não desmerece em nada aquilo que podemos construir em psicanálise ou na crítica literária, mas as bibliotecas amontoadas de ambas as disciplinas nada dizem acerca de pôr em prática o savoir-faire que as produzem nem as consequências desse ato. Trata-se de prescindir da sobreposição no sentido, do jouis-sense = gozo do sentido, como costumamos fazer frente à poesia, para passar do saber ao saber-fazer, essa torpe tradução literal da expressão francesa que prefiro ao crioulismo do darse maña (truque); escolho-o porque leva uma pitada de transgressão em seus derivados ‘mañero’ ou ‘mañoso’ e até na ‘artimaña’, um lado disruptivo que os analistas sabemos receber ou incorrer com concordância.

            É que estamos na dimensão do ato, onde encontro, para terminar, esse novo paralelismo entre o ato do escritor e o ato do analista: cada qual, à sua maneira, opera diante de uma página em branco.

3- Que obra ou autor de literatura o inspirou a ser criativo em seu trabalho?

Me ajuda em primeiro lugar a tradição literária rio-platense, sobretudo porque de sua mão, e em especial a de Borges, nada nos priva de julgá-la universal e de provar ao mesmo tempo seu inconfundível sabor sul-americano. Nada nela tampouco nos barra os caminhos; melhor, convida à frequentação da grande literatura de todos os tempos e de todos os lugares. Como leitor, não me canso de fadigar – verbo tão borgeano que serve até para inventar esse falso oxímoro ou por acaso um pleonasmo inútil – os textos em busca do momento de descobrir a habilidade do escritor para nos dar o espanto de um milagre estético. Glória do autor e felicidade de quem o lê, o regozijo deste desvelamento não está totalmente vedado ao analista, mas é difícil saber que o deslumbramento que produz ao toque com a beleza é a última e arrebatadora estação antes do real. É ao encontro deste real até onde avançamos em análise, e seu contato não provoca sensações agradáveis nem de outro tipo, despojado como está de qualidades estéticas ou morais. Pode talvez não ser o erro da angústia que nos espera ali, mas o seu toque, o da angústia, nunca está muito longe da surpresa e do assombro que nos aponta com sua certeza desde esse lugar.

            Se a um escritor prejudica ficar enredado na antiga disputa que a ética mantém com a estética, ou esta com a razão, se ao contrário seu logro consiste mais que nada em livrar-se dos erros da moral ou da lógica e servir-se deles somente para melhor imaginar o pano de seus personagens, a ele então é concedida a arte de embelezar a existência e de fazer que a literatura seja como a vida sem suas partes chatas, como alguém pensou.

            Por sua vez ao analista lhe é dado, em troca da suspensão de seus atributos pessoais, de suas inclinações estéticas e sobretudo de seus escrúpulos morais, a possibilidade de iluminar, com a única chama de seu desejo desnudo, o lugar de onde finalmente se pode ir além de toda ficção, o lugar onde cada um guarda o mais recôndito de seu ser de gozo no fundo de seu sintoma, um real que como tal não tem atributos, nem virtuosos nem infames.

            Mas além desse ato executado com o analisante, fora já do consultório, sim nos dedicamos a mergulhos literários como o desta página, cuja torpeza somente poderia ser  aliviada com as desculpas de Borges, de Piglia, de Cortázar, de Juan José Saer, de Onetti, de Faulkner, de Shakespeare, de Maupassant, de Dante…, de Freud e de Lacan.

tradução: Tiago Mussi

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