Prelúdio de uma ética do feminino – por Julia Kristeva – apresentado na abertura do Congresso da IPA

Esta mulher sobre a qual exclamam: Ela é de aço!

É simplesmente feita “de mulher”.

Colette, La vagabonde[1]

Qual ética?

         Na mutação antropológica acelerada deste início do terceiro milênio, as mulheres são uma força emergente, em sintonia com as profundas transformações de valores e identidades, E, ao mesmo tempo, uma alteridade irredutível, objeto de desejo, medo, inveja; de opressão e exploração ou abuso e exclusão.

         A psicanálise pode se fazer ouvir (questão epistemológica), deve se fazer ouvir (questão ética) nesta nova fase do Mal-estar (Unbehagen, Discontents) na civilização?

         Foi necessário que uma mulher viesse a ser presidente da IPA para aproveitar este momento histórico e assumir o risco de propor como tema de um congresso: “THE        FEMININE”.

         Eu disse o “risco”, pois O FEMININO, tal qual um “bóson do inconsciente” (da mesma maneira que existe um bóson de Higgs na física das partículas), é um elemento constitutivo, tão radical quanto inapreensível, de nossas identidades psicossexuais; e, já não sendo mais um “enigma” (Freud), este vetor que liga o soma e a psique não deixa de ser um “transbordamento” de actings existenciais e sociais, conforme demonstra a impressionante polifonia do programa deste 51º Congresso!

         Agradecendo pela honra que me foi dada, arrisco-me a afirmar que não se pode neutralizar o feminino, mesmo que seja apenas para fazer justiça às mulheres que lutam por seus direitos e àquelas que vêm buscar uma sobre(-)vivência em nossos divãs.

A disjunção entre instintual e sexual

         Nos dois mil e quinhentos anos de existência da ética, o feminino (THE FEMININE) tem sido rejeitado de sua esfera: não é um sujeito da esfera da ética, sendo, no máximo, um objeto (e olhe lá!).

A psicanálise rompeu com essa exclusão do feminino por uma espécie de ética que “põe entre parênteses”, isto é, que suspende o juízo, a moral e o mundo para melhor questioná-los, tomando uma direção – “onde era Isso, seja Eu” [Wo es War, soll Ich werden][2] – e dois princípios opostos – o princípio de prazer e o princípio de realidade.

Situada nessa suspensão, a transferência revela, no inconsciente, um sexual pulsional que, longe de evacuar o orgânico (a biologia e a anatomia), é desnaturalizado por ter sido disjunto do instintual orgânico pelo recalque originário. Essa disjunção originária constitui o ser falante como sujeito clivado, uma cisão (Spaltung) à qual o analista dedica sua escuta, e é esta clivagem que irrompe na moral normativa.

A fecundidade e o erotismo femininos parecem manifestar e trair essa disjunção, tornando-se assim alvo do desejo e da inveja. Devem ser possuídos, controlados, destruídos (também!), em benefício de uma dominação masculina constatada em todas as sociedades. O complexo de castração só adquire seu pleno sentido se for compreendido, para ambos os sexos, como um deslocamento traumático do “trauma”[3] da diferença dos sexos, que ressoa profundamente com a cisão-clivagem originária.

Duas fábulas da hominização

Duas fábulas sobre os primórdios da hominização ilustram a violência que marca a descoberta da diferença sexual e continua a apavorar e a encantar a heterossexualidade.

Para Claude Levi-Strauss, a “revolução psíquica da matéria”[4] ou a sexualidade desnaturalizada, que desloca o instinto animal para a pulsão, agora definitivamente dupla, heterogênea (energia-e-sentido), graças à linguagem, seria originariamente… feminina. Cito-o: “Únicas fêmeas entre os mamíferos a praticarem o ato sexual sem estar no cio”, as mulheres “puderam sinalizar seus humores com palavras”[5] (!).

Os primeiros humanos decoram as sepulturas (350.000), e a arte rupestre nos dá uma representação zoomórfica das pulsões: uma vulva gigante com uma cabeça de bisão, que parece puxar a corrida dos animais (Chauvet, 37.000). Capazes de retransmitir a libido presa à sua finitude através da linguagem e da arte, os dois sexos entram na cultura e na morte como sujeitos divididos. A heterossexualidade age e exibe a cisão do ser na existência humana, independentemente das proezas da reprodução artificial e da desculpabilização da homossexualidade.

Ainda nos resta explicar como a psicossexualidade feminina, modulada pelas grandes mudanças sociopolíticas da condição feminina, consegue transformar essa cisão inaugural e constitutiva. E como acaba em sintomas na “comédia heterossexual”[6].

Mudança de cursor

Quando eclode o “mal-estar”[7], Freud atribui à psicanálise, mediante dois ensaios sobre o feminino[8], uma nova tarefa que consistiria, no plano epistemológico, em “encontrar a conexão” da “teoria da bissexualidade” com a “teoria das pulsões”[9] – tarefa para a qual este Congresso convida – e, no plano ético, em testemunhar contra a “abstenção da vida sexual” (que não é a pornografia). E Freud espera – seria uma aposta? – que Eros faça “um esforço para se afirmar na eterna luta contra o seu adversário”[10].

As “duas fases” do Édipo feminino, segundo Freud, com mudança de objeto e sempre inacabado – prefiro infinito –, mostram que o feminino é um fator da transformabilidade da vida psíquica considerada não como um “aparelho”, mas como uma “vida anímica” ou “vida da alma”[11].

Prefigurando alguns aspectos das teorias dos “gêneros”, há uma bissexualidade psíquica polifônica, que é mais acentuada na mulher, mas se desdobra em cada sexo, de modo que pelo menos quatro participam do “jogo”. Para se modular, por fim, no singular. Angustiante e jubilosa é a liberdade arriscada dessa escolha, dessa ética cujas “normas”, até mesmo as próprias “identidades” (homem/ mulher), tornaram-se “conceitos dinâmicos”. Para o melhor e para o pior.

Resta a pergunta enigmática que Freud faz a Marie Bonaparte: “O que quer a mulher?” (Was will das Weib?). Ele não se interroga sobre o desejo (Wunsch), mas sobre o querer (Wollen), pilar da escolha numa vida ética. O incompreensível (“o que quer…?”) diz respeito à relação do feminino com os ideais da vida e com a vida ela mesma, inseparável dos ideais culturais.

Será que Freud buscava uma reestruturação da ética pelo feminino, THE FEMININE? A biopolítica da modernidade exige de nós, mais do que nunca, este questionamento.

Tentarei convencê-los – mas, como são psicanalistas, vocês já devem estar convencidos – de que o feminino trazido pela descoberta freudiana do inconsciente é um fator, senão O fator dessa inquietante abertura, devido à sua própria transformabilidade: o feminino é transformativo. Nem inata, nem adquirida, mas incansavelmente conquistada desde as duas fases do Édipo inacabado, a vivacidade do FEMININO se diversifica ou sucumbe nas provas da impiedosa realidade sócio-histórica.

Antes de prosseguir, uma confissão. Como vocês, ouço o feminino da mulher (não tratarei do feminino do homem) ao escutar meus pacientes, ao ler o que vocês escrevem, ao dialogar com vocês. E com frequência – como vocês? – estou farta dos seus mistérios disruptivos, de suas maquiagens de todo tipo! Em que proporção o feminino está em mim? Em vocês? Ninguém sabe, mas o feminino que eu encarno, à minha maneira, não é um artefato ideológico. EU participo de seu advento, sempre já por vir. Simone de Beauvoir escreve: “Não se nasce mulher, torna-se mulher”. Eu diria: Nasce-se (biológico) mulher, mas EU (consciente-inconsciente psicossexual) me torno(ou não) feminino (FEMININA).

Proponho compartilhar com vocês algumas etapas desse porvir às quais me conduziu minha experiência clínica com o feminino, por conta dos numerosos trabalhos que me guiaram e que não poderia citar.

2. O feminino transformativo

O Édipo biface

O feminino transformativo constrói-se no Édipo biface – Édipo primo [prime] e Édipo bis – e na religância* [reliance] materna.

Chamo de Édipo primo, o período arcaico que vai do nascimento à fase dita fálica, situada entre três e seis anos de idade. Bem distante do idílico “minoico-micênico” (Freud) e da serenidade do “ser” antes do “fazer” (Winnicott), a identificação projetiva (Melanie Klein) é favorecida pela semelhança entre filha e mãe e pela projeção do narcisismo e da depressividade materna sobre a filha.

Estabelece-se uma subjetividade interativa pela elaboração precoce de um vínculo de identificação-introjeção/ projeção com o objeto amante-e-intrusivo que é a mãe (na medida em que ela incorpora o feminino e transmite o desejo do pai).

Psiquização do vínculo

Pela introjeção, a cavidade excitada do corpo interno se transforma em representância (ou representabilidade) interna do externo. Essa psiquização da alteridade é logo dificultada pela identificação com a mãe e pela reatividade da menina como agente, ela também, da sedução-efração-frustração. A dependência arcaica prepara o status de objeto erótico feminino, ao qual a mulher solicitará que ele a compreenda como se fosse… uma mãe imaginária: a demanda feminina que busca a “autenticidade” é habitada pela miragem persistente do Édipo primo. Mas o conflito primário logo percebe ali a “ilusão” desse apego primário, despertando a vigilância que detecta a “impostura”[12] nos vínculos.

Além dos dois obstáculos que são o narcisismo e o masoquismo apassivador, a semelhança projetiva do Édipo primo estrutura então o psiquismo da menina como uma mesmidade alterada, como uma alteridade integrada. O si fora de si, o fora-de-si em si[13].

Essa psicossexualidade de interdependência é codificada no fluxo sensorial, nos gestos, nas imagens e nas ecolalias, que eu chamo de receptáculo (chora) semiótico: investimento de vocalizações pré-linguísticas (intensidade, frequência e ritmo) que já possuem sentido sem possuir significação, uma vez que esta se elabora com a aquisição das regras simbólicas (da fonética e da gramática)[14].

A copresença dos “mesmos” (mãe e filha), minucioso ajuste sensorial de suas harmonias-desarmonias, atravessa o cuidado utilitário e se esgota no império feminino dos sentidos que é a beleza[15]. Argumento que, ao mesmo tempo em que aparece no olhar materno para o recém-nascido dos dois sexos, e antes de se mobilizar para enfrentar a castração ou a falta, a beleza magnetiza a mesmidade diferenciada menina-mãe, as excitações e a ternura de todos os seus sentidos semióticos atribuídos.

Essa beleza não deixa de coabitar logo com o desejo de expulsar a expulsão. Os primeiros gestos pré-simbólicos ganham um tom de rejeição: atração e repulsão, fascínio e repulsa, nem “sujeito” nem “objeto”, a abjeção é mais violenta entre a menina e a mãe do que entre a mãe e o menino idealizado. A isso se somará o ódio da adolescente pela mulher castrada, objeto do pênis paterno. Um ódio sem o remorso de Orestes. Diferentemente do parricídio, o matricídio praticado pela menina permanecerá como um complexo inconsciente nebuloso, um ruído de fundo contínuo que a acompanhará em seus intermináveis acertos de contas com a mãe e suas representantes. Impensado, impensável, o matricídio a despoja de si mesma.

O feminino, refém potencial do materno pré-objetal, da Coisa[16]; o feminino, primeira elaboração das fobias do infans, sem a qual o adolescente fóbico e suicida, “tornando-se incapaz de suportar a si mesmo”, tentará se refugiar na anorexia e fora do sexo, mudando até mesmo de sexo; o feminino, reservado e recalcado pelo acesso ulterior ao fálico.

Não seria precisamente essa posição feminina alterada, tão absoluta quanto recusada, delineando-se já no Édipo primo, que subjaz ao fato de que o feminino seja o “mais inacessível”, segundo Freud, para ambos os sexos? Inacessível por medo da apassivação, da regressão narcísica e masoquista, da perda de referências visíveis da identidade por um engolfamento sensorial que pode dispersar o sujeito num autismo endógeno, até mesmo patológico.

Continente mal recalcado, ou seja, mantido, o feminino alterado do Édipo primo será mascarado pela feminilidade reativa e seus desfiles de embelezamento ou de reparação narcísica, com os quais o falicismo posterior da mulher reage ao complexo de castração. E é durante a fase fálica, entre três e cinco anos de idade, em que o sujeito é introduzido na triangulação edípica, que a mulher passará por mutações psíquicas, pelas quais a escolha da identidade sexual se fará definitivamente, ou não.

Estranha ao falo

Dois momentos marcam essa instalação no Édipo bis. O estágio fálico se torna o organizador central da copresença sexualidade-pensamento em ambos os sexos; é um “kairos fálico”, no sentido grego de “encontro” mítico E / OU “corte” de destino. Estabelece-se uma equivalência entre, de um lado, o prazer do órgão fálico, visível e valorizado na sociedade androcêntrica, e, do outro lado, o acesso à linguagem, à função da fala e do pensamento.

A entrada no Édipo bis (o pai substitui então a mãe como alvo do desejo) acompanha um momento decisivo na construção da subjetividade feminina: o investimento (Besetzung, catexia) do que Freud chama de “o pai da pré-história individual”[17]. Antes de “se tornar certa”, a diferenciação sexual é apenas uma questão de “identificação direta e imediata” (Einfühlung) com o pai, que ainda não é “objeto”, mas já uma instância terceira E identificatória que, “reunindo as características de ambos os pais, leva à formação do Ideal do eu”. Insisto na “bissexualidade” (pai e mãe) que intervém na terceiridade originária. E considero que a parte “mãe” desse “pai imaginário” só pode favorecer a transição do Édipo primo feminino para o Édipo bis, sustentando assim essa bissexualidade sobre a qual Freud afirma que ela “se manifesta muito mais claramente na mulher que no homem”[18].

Figura terceira, separadora e reguladora da díade sensorial mãe-criança, o pai terá de se colocar para sempre como pai simbólico, instância do interdito e da lei, razão, poder e códigos morais. O pênis se torna assim, para os sexos falantes, o falo – significante da privação, da falta e, pela mesma razão, do desejo: desejo de copular, significar, sublimar, criar.

O menino entra no Édipo sob o regime do assassinato do pai e da castração, e os “resolve” pelo Supereu. A menina entra no Édipo bis favorecida pelo feminino do “pai da pré-história”, que, ao contrário, angustia o menino ao remetê-lo à castração e à passividade. Ela idealiza essa terceiridade bivalente paterna e seus valores; mas, magnetizada pela mesmidade-intimidade materna do Édipo primo, adere à ordem fálica como estranha ao falo, percebendo a sensorialidade e a excitabilidade do clitóris como menos visíveis e menos notáveis, mesmo – e sobretudo – se tentar defender-se disso erigindo-se numa postura fálica. Comunicadora incansável, ativista inflexível, ela preenche as telas com causas inevitavelmente paternas, que o poder midiático-político utiliza sempre na ânsia de resgatar latências espetaculares de suas palavras de luta.

A não ser que ela purifique seu Édipo primo pela revolta e pela insubmissão, pela “eterna ironia da comunidade” (segundo Hegel), pela curiosidade insaciável de uma pesquisadora.

Adaptabilidade e cicatriz

A extraordinária adaptabilidade social feminina oculta – cicatriz obstinada – essa dissociação constitutiva que se expressa como estranha à ordem fálica. De um lado, um intenso investimento da alteridade que serve de apoio, um movimento psicossexual que se revela na necessidade de crer: no envelope materno, no pai imaginário. Do outro lado, essa crença – desmentida pelo sexismo e ensejada pelo Édipo primo – e também toda identidade são vivenciadas no registro do ilusório: é um jogo, “faço parte dele, mas faço de conta”. Iludido, o feminino é igualmente desiludido, desapontado: um desapontamento radical, mais intratável que a melancolia, não porque confronta o nonsense do ser, mas a absence* [ausência] de ser. Quando ele/ ela descarta o suicídio, o feminino assume essa ab-sence de ser e revive com ela. Zona temível em que a força (de viver) convive com a indiferença.

O feminino reprimido, maltratado, entrincheirado em sua estranheza e ausência, deixa-se consolar e instrumentalizar pelas religiosidades sectárias ou fundamentalistas; devotas e místicas existem em grande número, mas o feminino desiludido também faz as ateias mais aguerridas.

O aparente realismo feminino apoia-se nesse ilusório: as mulheres não param de fazer e fazer de tudo, por não acreditarem nele totalmente: acreditam que é uma ilusão… a ser refeita.

No entanto, o amódio* [hainemoration] feminino pelo falo não se extingue. O feminino sabe combater tanto a dominação materna do Édipo primo quanto o pai do Supereu no Édipo bis. Mas a interiorização feminina de toda essa panóplia psicossexual – que acabo de traçar simplificadamente –, na preservação da intimidade que foge de si mesma, também facilita o contato intrapsíquico do feminino com a pulsão de morte. Antes de e sem se externalizar no sadismo, o masoquismo originário é apenas uma versão melancólica dessa destrutividade que esculpe o humano, e modela “naturalmente”, por assim dizer, o humano feminino (pense na cena do pequeno Sigmund, em que sua mãe modela os Knödels). Freud afirmará que o “princípio de prazer [está] simplesmente a serviço da pulsão de morte”[19]. No entanto, para uma mulher, Sabina Spielrein (1885-1942), que teorizou a pulsão de morte em 1912, antes de Freud, é o contrário: “a necessidade de destruição é inerente ao instinto sexual”, mas “a destrutividade [não] é [senão] a condição de todo devir”.

Além disso, com o amódio do falo, uma segunda postura psíquica, iniciada no Édipo primo, só se realiza durante o Édipo bis: na condição de ser falante, o feminino acessa a ordem simbólica social como sujeito estranho ao fálico; mas na condição de feminino, este sujeito deseja ter um filho do pai a partir do lugar da mãe.

Assim, do Édipo primo ao Édipo bis, o feminino transformativo é um multiverso (eu empresto este termo da astrofísica contemporânea) que o encontro amoroso desperta e reconstrói. A não ser que essa estrutura laminada seja condensada em anorexia ou frigidez, uma cascata de sensorialidades, traços mnésicos, fantasias e ideais copresentes leva o prazer de órgãos ao gozo feminino. “Toda a minha pele tem alma”, escreveu Colette. Acrescento: toda a minha carne tem alma. Completude destotalizada e eclipse de si: vitalidade absoluta e mortalidades cruzadas de ambos os parceiros.

Religância

A experiência materna é outro componente do feminino transformativo que eu denomino religância. Um erotismo no sentido em que a psicanálise entende Eros como “reunindo a substância viva, dispersa em partículas, em unidades cada vez mais extensas, mantendo-a naturalmente nesse estado”[20].

Originariamente experiência biopsíquica, a religância – da mulher e do homem – pode ser recusada ou transposta para profissões ligadas à educação e à saúde ou para diversos engajamentos sociais. Mas inverte-se em mère-version[21] [mãe-versão], quando a libido da amante desvia para a criança as pulsões insatisfeitas.

Antes de se tornar um “continente”, do qual se liberará a criação dos vínculos psíquicos[22], o erotismo materno é um estado: um “estado de urgência da vida”[23], uma qualidade de energia já sempre psicossomática, dada e recebida para “se manter na medida necessária à conservação da vida”.

Mas enquanto a libido da amante é dominada pela satisfação das pulsões, o erotismo materno transforma a pressão libidinal em ternura; para além da abjeção e da separação, a ternura é o afeto elementar da religância.

O erotismo materno nos parece um investimento da “dupla inversão” da pulsão em todos os níveis do aparelho psíquico, constituindo, portanto, uma condição essencial para a mutabilidade do aparelho psíquico da mãe e da criança.

Dois fatores internos à intersubjetividade materna favorecem esse metabolismo da paixão destrutiva em desapaixonamento religante: o Édipo biface da mulher, revivido e remanejado no novo casal parental, e a relação materna com a linguagem.

Sobre esses dois pilares, constrói-se um verdadeiro ciclo sublimatório[24] na aquisição da linguagem pela criança. Para aqueles que afirmam que o feminino não tem humor, lembramos a economia desse ciclo sublimatório que é literalmente a que Freud observa na emissão e na recepção do chiste: surpreso e capturado pela armadilha, o interlocutor é convidado a recriar a história, e a criança, também.

Portanto, RELIGÂNCIA. Depois da ênfase na separação e na transicionalidade, com Winnicott, e na loucura materna, com André Green, parece-me importante insistir hoje nessa vertente materna que MANTÉM o investimento e o contrainvestimento da ligação e do desligamento nas relações psicossomáticas, para que permaneçam abertos, a serem identificados e recriados. Este erotismo específico que mantém a urgência da vida até os limites da vida, eu o chamo de religância.

Segue-se um tempo espiral e em rebotes: o tempo materno como começo e recomeço.

Herege do amor

As mulheres querem ser livres para decidirem ser ou não ser mãe. Algumas recorrem facilmente à maternidade assistida, sem preconceitos: seria talvez porque a vertente pré-subjetiva do erotismo feminino as familiarizou com esse despojamento de si que a ciência moderna impõe ao mais íntimo? Ao mesmo tempo, o feminino transformativo não se liberta dos dogmas nem das normas, mas os modula em conceitos dinâmicos. E alcança essa ética em suspenso que caracteriza… a própria psicanálise.

Cabe à psicanálise continuar criando novos conceitos de metapsicologia para desenvolver – à escuta da sexualidade da amante – a elucidação e o acompanhamento do erotismo materno em sua especificidade. Caso contrário, a emancipação do sujeito/ mulher está fadada a ser apenas uma engrenagem sem ética na automação da espécie humana. Se o amor é, segundo Spinoza, a face íntima da ética, o feminino não é uma ideologia nem uma moral, mas aparece como uma “herege” do amor.

Os limiares dessa transformabilidade são tantos obstáculos nos quais o destino feminino tropeça ou fracassa, por um lado, no sofrimento ou no sintoma patológico, e, por outro, na cumplicidade com o conformismo social ou o totalitarismo. Mas quando consegue driblá-los – associando-se com o masculino de um companheiro, apoiando-se na cumplicidade de uma companheira ou numa comunidade, atravessando a solidão e os conflitos e, por exemplo, com o auxílio da psicanálise –, o feminino reflete uma maturidade que parece faltar ao “bebê macho”, abrigado à sombra do poder e da sedução masculina. Antes que o feminino do homem restaure a transformabilidade.

3. Singularidades e metamorfoses da parentalidade

Assim entendido, proponho pensar que o feminino – “estrutura aberta” e destotalizada – participa da superação e da legitimação em curso das identidades de sexo E de gênero, do futuro singular e compartilhável destas. O terceiro milênio será o das chances individuais, isto é, singulares. Ou então não existirá[25], se ele se deixar engolfar em semelhanças e likes banalizados pela automação transumanista que está instalando a dominação binária “daqueles que o têm” sobre “aqueles que não o têm”.

O “trauma” da diferença dos sexos, que Freud especula até o Esboço (1939-1940), encobre-se, se não “desaparece” na multiplicação dos gêneros que reivindicam lutas subversivas apaixonadas. No entanto, o alcance libertador do gênero desestabiliza o próprio “sexo psíquico” e revela as zonas traumáticas da subjetividade, em que se rompe esse vínculo primordial com a vida que é a sexuação. Sem sucumbir à clivagem, mas beirando-a, a angústia da castração e do vazio bem como a exibição fálica podem gerar sintomas que, longe de erotizarem (J. Butler) o feminino, o “desintegram” e o levam ao recuo do outro e dos vínculos. Quando não o condenam à violenta vertigem do ser que intima a “mudar de corpo” pela manipulação hormonal ou até mesmo genética. O analista (homem ou mulher) é levado(a) então a recriar – em sua escuta – o feminino (no sentido da transformabilidade e da religância) para acompanhar os sintomas desses “seres de outra maneira” em direção à criatividade.

Dentre esses sintomas, eu poderia mencionar: a fadiga incurável, a tensão extenuante, a incapacidade de se escolher, oprimida entre posturas e objetos de desejo masculinos e femininos; o ciúme implacável pela “outra mulher”, sinal da recusa em aceitar sua feminilidade de sexo ou de gênero que passa do ódio à ternura na transferência com uma analista mulher; a compulsão desenfreada a fazer para não ser, a anular-se pelo fazer, que se lança numa narração alucinada, solapando o feminino do homem analista; ou ainda a radicalização fundamentalista de uma adolescente que se dizia feminista por “odiar os homens”, mas disposta a “fazer filhos por Allah”…

Essas observações me levam a um assunto tão normativo quanto sensível: a heterossexualidade.

A heterossexualidade é o problema

A heterossexualidade (no sentido da psiquização da genitalidade e da diferença sexual, incluindo a bissexualidade psíquica, e no sentido de sua inserção no pacto social) é uma aquisição frágil e tardia na história das culturas humanas, sendo ainda hoje a problemática por excelência para todos nós, tanto na parentalidade quanto no próprio laço social.

Hoje, a heterossexualidade deixa de ser percebida como a maneira mais segura e única de transmitir a vida e garantir a memória das gerações. No entanto, sejam quais forem as variantes da “norma heterossexual” na psicossexualidade de cada um e as aceitações ou rejeições em relação aos casais compostos de formas diversas, a miragem da “cena primitiva”, como fantasia original que estrutura o inconsciente, relaciona inevitavelmente a diversidade dos erotismos com “o ápice da procriação”, como explica G. Bataille[26]. E a heterossexualidade contém tanto a intensidade extrema quanto a fragilidade insustentável que habitam a fúria da cena primitiva: fusão e confusão do homem e da mulher, perda exuberante de energias e identidades, afinidade da vida com a morte. A heterossexualidade, portanto, não é apenas uma descontinuidade (“sou outro/a, sozinho/a diante do outro”), normatizada pela continuidade (fusão para “dar” a vida). A heterossexualidade é uma transgressão das identidades e dos códigos que não provém do pavor, mas da angústia e do desejo por morte, levados pela promessa de vida através da morte. Mas, no auge do dispêndio, o prazer recompensa a castração, a angústia de morte eleva-se ao gozo e a anula: tomando forma na provável concepção de um novo ser, estrangeiro e efêmero[27]. Este é o sentido da cena primitiva, e de todos os erotismos que têm nela seu umbílico, até a doença de amor que assombra nossos imaginários.

Fragilidade do casal heterossexual: porque a emancipação das mulheres acentua o feminino singular das mães e das amantes e perturba os homens que sentem com elas um “perigo de homossexualidade” (Colette) – feminina ou masculina? A não ser que seja uma esperança.

Procuramos em vão onde estão os “valores humanistas”. E se o casal heterossexual e sua família fossem o ponto visado, precisamente no lugar do “valor” (que se delineia como uma preocupação de superar a solidão, de estender-se e transmitir). A biotecnologia reprodutiva e o casamento para todos não modificam nada: nossas fantasias convergem inconscientemente para esse legado arcaico da parentalidade.

O casal heterossexual, casado, continua a fascinar. Não só o casamento como instituição o normatiza, mas também o cinema, de Hollywood a Bollywood, o impõe como modelo a ponto de causar repulsa. O casal: enigmático, escandaloso, detestável e, por isso mesmo, desejável. A heterossexualidade é e será o problema. Assim, a partir de e com o feminino transformativo singular, infinitas são e serão as metamorfoses da parentalidade que a psicanálise se prepara para acompanhar.

Senhora Presidente, as mulheres não são donas do feminino transformativo sempre em devir que participa, com o masculino, da psicossexualidade dos viventes que falam e imaginam. Desde o último Freud e nas mutações sócio-históricas de hoje, o feminino parece estar no cerne da experiência psicanalítica. A psicanálise seria uma das possíveis sublimações (quem sabe a última?) desse feminino?

Para o exercício de sua clínica, “the psychoanalytic listening” [a escuta psicanalítica] se mantém à espreita da “presence of change in certain dimension of psychic functioning “ [da presença de mudança em certa dimensão do funcionamento psíquico] – do sensorial ao linguístico (do “semiótico” ao “simbólico”) – e é capaz de induzir o paciente “to collaborate with the task of transforming [these] elements” [para colaborar com a tarefa de transformar [estes] elementos]. E você adverte: apenas “an improvement on the attachement to the analyst and her capacity to receive and contain his anxieties made this transformation possible” [uma melhora no vínculo com o analista e sua capacidade de receber e conter as ansiedades torna possível essa transformação][28].

Como presidente da IPA, sua plasticidade é e será muito solicitada, sempre discreta e eficaz! “Renascer nunca esteve além das minhas forças”, escreveu Colette[29] (1873-1954), um desses gênios femininos “transformadores” cuja leitura nos revigora. Que este lema vos acompanhe.

Boa sorte!


[1] In Œuvres complètes, tome I, Gallimard, coll. «Bibliothèque de la Pléiade», 1984, p. 1088.

[2] Freud, Nouvelle suite des leçons d’introduction à la psychanalyse, XXXIe Leçon: La décomposition de la personnalité psychique in Œuvres complètes – Psychanalyse – vol. XIX: 1931-1936, PUF, 2004 p.140-163.

[3] Cf. Abrégé de psychanalyse, 1938/1949, PUF, p. 244.

[4] Cf. S. Freud, « Deux principes dans le cours du développement psychique », 1911.

[5] Cf. C. Lévi-Strauss, Nous sommes tous cannibales, Seuil, 2013, p. 214-215. O grito da fêmea não seria mais uma pressão hormonal do ciclo ovariano, mas o « sinal » do investimento psíquico em curso no parceiro masculino.

[6] Cf.. J. Lacan, Ecrits, Seuil, 1966, p. 694 .

[7] S. Freud, Malaise dans la culture (1930), PUF, t. XVIII, p. 245-333.

[8]  « De la sexualité féminine », 1931, et « La Féminité », in Nouvelles suites de leçons ďintroduction à la psychanalyse, 1933.

[9] S.Freud, Malaise…, op. cit., p. 293.

[10] Ibid., p. 333.

[11] Cito a expressão de Françoise Coblence. Cf. Revue française de psychanalyse, vol. 74, 2010, p. 1285-1286.

* Nota de tradução: trata-se de um neologismo, assim como no original. Seguimos a tradução proposta em outros artigos da autora já publicados em português no Brasil, conforme  http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-31062013000100017#1a .Acessado em 27/06/2019.

[12] Helen Deutsch (1884-1982) foi a primeira a diagnosticar a « personalidade como se », inaugurando assim a clínica dos «falsos selfs». Cf.  La Psychanalyse des névroses, Payot, 1970, p..275, 285.

[13] Melanie Klein, uma mulher psicanalista, foi quem postulou a existência, desde o início da vida, de um “eu” capaz de “relação de objeto”, mesmo que parcial (o seio). E foi uma mulher filósofa, Hannah Arendt, que criticou o isolamento melancólico de seus colegas homens, defendendo que o “eu-sozinho” “só pertence aos outros”.

[14] Hanna Segal identifica as « equações psíquicas” prévias aos “verdadeiros símbolos” da “posição depressiva”. In « Note on symbol formation », in International Journal of Psycho-Analysis, col. XXXVII, 1957.

[15] Freud dizia que “infelizmente, […], aliás, a psicanálise não tem absolutamente nada a dizer sobre a beleza”. Cf. Malaise…, PUF, p. 270.

[16] Cf. J. Lacan, Ethique de la psychanalyse, (1959-1960), Seuil, 1986, p. 87-102.

[17] Cf. S. Freud, « Le Moi et le Ça », 1923, PUF, p. 275, 276.

[18] Cf. S. Freud, « De la sexualité féminine », 1931, PUF, t. XIX,  p. 12.

* Atente-se para o jogo de palavras pela homofonia existente entre nonsense e absence.

* Neologismo já consagrado em português, a partir da junção de amor e ódio, para traduzir o neologismo lacaniano haineamoration.

[19] Freud, « Au-delà du principe de plaisir », 1934, p. 337.

[20] Freud, « Le Moi et le Ça », 1823, p. 283. E Lou Andreas Salomé: “[…] tatear no espaço […] e em nosso próprio corpo com confiança, como uma mão estendida ao outro […] com toda a interioridade da criatura para a qual essa relação ainda não obscureceu em absoluto” (Carta a Rilke, 1º de março de 1914, in Correspondance R.M. Rilke et Lou A. Salomé, Gallimard, 1979, p. 231). Antes de atribuir ao materno justamente essa capacidade de apresentar e superar a “clivagem patológica” para “produzir o tecido” entre a realidade interna e a realidade externa, matéria e símbolo, masculino e feminino, e “restituir a degradação que sofre o processo de individuação”.

[21] Conforme a expressão de Isle Barande, « De la perversion, notre duplicité d’êtres inachevés », 1987.

[22] B. Brusset, Psychanalyse du lien, PUF, 2005.

[23] Cf. o « Not des Lebens » de que falam Heidegger e Lacan.

[24] J.-L. Baldacci, « Dès le début, la sublimation ? », in Bulletin de la SPP, n° 74, 2004, p. 145.

[25] “Os dois sexos morrerão cada um de seu lado”, Alfred de Vigny citado por Marcel Proust.

[26] L’Erotisme, 195.

[27] Esta intimidade entre dois incomensuráveis “rompe os vínculos grupais de raça”, “divisões nacionais e sistema de classes sociais, produzindo importantes efeitos como fator de civilização”, escreve Freud (Psicologia de grupo e análise do ego, 1921). 

[28] Cf.  Time for change, chapter 4, p. 4 and 14.

[29] La Naissance du jour, O.C., Pléiade, III, p. 349.

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