Entrevista com Gladys Franco

Por Tiago Mussi  (Sociedade Brasileira de Psicanálise do Rio de Janeiro), Daniel Senos (Sociedade Brasileira de Psicanálise do Rio de Janeiro), Alejandra Giraldez (Asociación Psicoanalítica de Córdoba), Lorena Polo (Sociedad Psicoanalítica de México), Soledad Sosa (Asociación Psicoanalítica del Uruguay), Veronica Vigliano (Asociación Psicoanalítica de Córdoba)

A entrevistada desta coluna é Gladys Franco, que é a atual presidente da Asociación Psicoanalítica Del Urugay (APU). Assim ela se define a si mesma: “No campo, onde sobrevivi à infância, foi gestada a neurose que me orientaria a transitar pelos caminhos da cura: a psicanálise e a literatura. Escrevo poesia e narrativa. Pratico a psicanálise. Vivo em Montevidéu”.

  1. Qual a relação entre literatura e psicanálise?

Penso que existe um relação entre psicanálise e literatura afirmada na natureza do inconsciente, para cuja estruturação a linguagem é determinante.

Tanto a psicanálise quanto a literatura são disciplinas aptas para a expressão e captação do inconsciente em suas múltiplas manifestações e as que mais claramente deixam evidentes de que o humano é um ser (feito) de palavras.

Lapsos, sonhos, sintomas e atos falhos mostram na vida cotidiana o discurso do desejo em permanente exposição de intenções cifradas, que a análise oferece a oportunidade de colocar em palavras, de compreender e transformar.

Ao mesmo tempo, nós, seres humanos, expressamos de diversas formas a dor existencial resultante da capacidade de pensar, capacidade que nos permite saber de nossa incompletude, divisão, solidão e finitude.

A psicanálise nos permite trabalhar essa dor essencial – que também sustenta a dor da insatisfação do desejo – em nós mesmos e com os outros através da palavra.

E todas as particularidades possíveis do humano estão representadas na literatura, arte que nos mostra todo o bem e o mal do humano e nos permite reconhecer na própria vivência, na identificação e na rejeição, mesmo no horror, aquilo que faz parte de nossa essência.

  • Como a literatura de ficção influencia no seu trabalho como psicanalista?

Deve haver mais de um tipo de influência da literatura de ficção sobre a minha prática como analista. A que me é mais fácil reconhecer é a multiplicidade de associações que provê minha atenção flutuante. Com frequência, os relatos dos analisandos me evocam cenas, personagens, situações que conheço através de minha apaixonada relação com a literatura. Às vezes, a interpretação surge desses enlaces.

Por outro lado, quando escrevo algo relativo a minha prática não pretendo relatar com fidelidade o acontecido, sei que a transmissão de uma lembrança ou um sonho, os fatos já foram ligados, mesclados e modificados e o produto final da minha escrita será psicoanalítico, mas também literário.

  • Qual obra literária ou autor mais o inspirou a ser criativo em seu trabalho?

Seria injusto mencionar somente uma obra ou autor. Para começar, escolho nomear um gênero: a poesia. E embora também não seja fácil explicar como opera sobre meu trabalho de psicanalista, sua influência é uma vivência persistente. A criatividade em uma análise é algo que cresce junto com o analisando, com base em fatores transferenciais inéditos em cada caso.

Um analisando, imerso em profundo sofrimento da perda de uma pessoa amada, falava um dia na sessão – com a vivência perturbadora de estar louco – acerca da sensação de “escutar” a voz da pessoa morta. O iníco de Vozes, de Kavafis, diz: “Amadas vozes ideais/daqueles que morreram, ou daqueles/perdidos como se houvessem morrido./Algumas vezes no sonho nos falam,/algumas vezes a imaginção as escuta”… Algumas vezes os poetas interpretam melhor o insustentável da dor psíquica, sem tentar psicopatologizá-lo.

Muitas vezes, especialmente quando por efeitos de transferência me encontro travada, ou sinto medo, algum poeta, alguma estrofe, algum título vem em meu auxílio e no auxílio do trabalho analítico. Assim como no exemplo de Kavafis, evoco outra situação em que uma pergunta sobre um silêncio muito prolongado em uma sessão foi respondida pelo analisando com mais silêncio. Não parecia um silêncio de elaboração, mas angustiante e até mesmo sinistro, que me envolvia. Então, “de improviso” se tornou presente em minha mente esta sequência: “penso em ti/ de improviso/ porém/ quanto mais me avilto e desconsolo…”

Não pude nunca reencontrar essa versão (se é que corresponde a uma tradução reconhecida do soneto XXIX), o que recordo, com gratidão, é que a intervenção shakespeariana pemitiu que eu reencontrasse o meu lugar na função analitica.

tradução para o português: Tiago Mussi

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