Entrevista com Pilar Guzmán, Andrea El Maalouf e Juan León – ILAP / Equador

1. Como pensa a Psicanálise em épocas de crise? Quais são as particularidades na formação de analistas, no momento atual?

Pensamos que a Psicanálise, como em outras épocas, busca resgatar a subjetividade e a particularidade de nossos desejos, mas está também para ajudar a recompor e a pensar o laço social, tão afetado pela dureza da pandemia. A Psicanálise facilita a abertura de espaços de reflexão e discussão clínicas, assim como mecanismos que permitem expressar e transformar toda a dor atual no nível individual e coletivo.

Nós, candidatos, hoje mais que nunca, devemos trabalhar em nós mesmos, apoiando-nos no modelo de formação, com base no tripé psicanalítico: análise pessoal, supervisão e teoria. Manter a análise faz-se importante, pois estamos mobilizados; e muitos em processo de luto, isolamento e mudança em nossos espaços de trabalho, especialmente em nossas consultas, que acontecem por meio digital.

Nossas próprias análises têm tido que ter presente as particularidades do confinamento e da realidade social que nos afeta. Sem dúvida, temos constatado que o modelo de formação do ILAP (Instituto Latino-Americano de Psicanálise) constituiu-se em uma riqueza; e isso porque tivemos a abertura de realizar análises mistas (online e presencial), desde o início de nossa formação, o que nos preparou para os modelos de análise virtual que estão acontecendo.

Por outro lado, a supervisão, que também se realizava no modelo misto, tem mantido seu nível de trabalho, e cada um segue avançando, de acordo com seu momento de formação. Outro benefício que temos encontrado na formação que o ILAP oferece, é a facilidade de ter acesso a diferentes analistas didatas e supervisores, de diferentes sociedades de toda a América Latina, o que gera uma visão diversa nos membros do grupo, e que tem enriquecido o pensamento coletivo. 

Com respeito à nossa formação teórica, tem-nos sido oferecido e possibilitado o acesso a Webinars, Seminários e Conversas Clínicas. Isso tem enriquecido nossa prática, que se viu interrogada pelo momento atual.

Também nos parece necessário citar um quarto elemento: de aproximação entre candidatos, analistas, associações e grupos de pensamento psicanalítico, o que nos permite sair do isolamento e gerar processos de pensamento coletivo e redes de apoio, para desenvolver maior consistência em nosso trabalho, e ainda compartilhar experiências pessoais do momento complexo que estamos vivendo.

2. Como manter a palavra circulando, e muito além da dramática do contágio dos corpos? De que forma sensibilizar os analistas em formação, para a escuta entre o que atravessa a subjetividade e os acontecimentos sociais?

Hoje, mais do que nunca, reconhecer o outro como semelhante é o exercício ético que permite a circulação da palavra e do acontecimento social. Recortar as necessidades narcísicas, próprias de uma situação crítica, permite ter empatia com a dor da outra pessoa (com toda a diversidade que implica este termo, a nível de gênero, idade, condição econômica, etc.) e gerar um diálogo para construir possibilidades de pensamento e ação.

A formação sólida tem permitido construir em nós um enquadre interno que tem sido essencial, neste momento, para enfrentar a virtualização de nossa atenção clínica e de nossa identidade como analistas, o que vai além de um enquadre tradicional, permitindo-nos manter uma prática psicanalítica ética e rigorosa com nossos pacientes, apesar de não termos um espaço físico de encontro com eles.

Nossos países em desenvolvimento, com sua realidade complexa, nos questionam sempre quanto a uma prática matizada pelo social e comunitário. E colocam-nos frente a realidades afetadas pela pobreza, pela exclusão social e por modelos políticos deficientes e ineficientes, que nos põem de cheio, frente ao sofrimento particular dos grupos de atenção prioritária (meninos, meninas e adolescentes, grupos coletivos LGB, mulheres, adultos velhos, descapacitados, e povos e nacionalidades indígenas, etc.).

3. Em sua experiência, que efeitos tem a quebra da ilusão de que o analista não padece das mesmas dificuldades que o analisando, como acontece com a pandemia atual do coronavírus? Quais são as implicações clínicas, e de que modo transmitir ou praticar a Psicanálise em tempos de crise?

A pandemia é uma realidade que se infiltra no campo psicanalítico, aquele se constrói entre paciente e analista, pois ambos vivenciam a angústia de uma realidade social compartilhada, que afeta a mente do analista e nossa postura de abstinência. A análise pessoal, os grupos de encontro e o compartilhar afetivo com os colegas permitem-nos conter, de certa maneira, a angústia para continuar a prática em tempos de crise.

Há que apostar nos vínculos! O encontro do psicanalista com seu paciente, família, instituição ou coletivo é um elemento essencial para o psíquico e as emoções. O vínculo, a relação com o outro, constrói a possibilidade de processar e metabolizar diferentes elementos do pensamento, entre eles: o mortífero, a pulsão de morte, o desconcertante e impensável da pandemia. Portanto, é essencial manter a esperança, o libidinal na relação com os outros, permitindo o surgimento do processo criativo.

4. Em seu país ou em sua sociedade? Quais medidas estão sendo adotadas para manter os laços sociais em tempos de isolamento social? Qual é o papel do Instituto de Psicanálise neste momento?

O ILAP, como Instituto, tem facilitado a continuidade da formação através de reuniões, discussão teórica, encontros clínicos, seminários, cine-fóruns, e sobretudo provendo as condições necessárias para manter o tripé psicanalítico da formação dos candidatos. Nós, como Grupo de Psicanálise de Quito, temos somado nossos esforços aos do aparelho governamental, para apoiar a intervenção na área da saúde mental, tão necessária neste momento para nosso país, que é um dos mais afetados pelo COVID, a nível sul-americano. Também temos buscado manter nossas redes internas, assim como a conexão com analistas de outras Associações Psicanalíticas da América Latina, e assim temos buscado somar esforços para construir modelos alternativos de intervenção coletiva e individual.

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