Entrevista com Alejandro Beltrán

Acima: ilustração de Henri de Montaut para “Da Terra à Lua”, de Julio Verne.

“Uma forma de entender a modernidade é o desvanecimento do sagrado: a psicanálise substitui o divino enraizado na mitologia pelo dolorosamente humano da literatura.”

Alejandro Beltrán é o atual presidente da Sociedad Psicoanalítica de México. Tem uma ampla experiência na clínica com crianças e adolescentes.

1- Qual é a relação entre a literatura e a psicanálise?

Existe uma relação histórica; eis aqui apenas alguns exemplos chave: lembremos que uma das fontes da psicanálise foi a literatura romântica, na qual o sonho, como um espaço outro onde explorar o eu, foi uma das linhas diretas que fundamentarão a interpretação de Freud. E, claro está, a tragédia de Sófocles permitiu a Freud explicar a estrutura simbólica do tecido do humano; desde então, Édipo em sua triangular potestade tem dominado o pensamento psicanalítico, ainda que o domínio contemporâneo do pensamento bioniano colocou em um lugar cada vez mais central o ensimesmado príncipe Hamlet.

Uma forma de entender a modernidade é o desvanecimento do sagrado: a psicanálise, objeto e agente de sua desaparição, substitui o divino enraizado na mitologia pelo dolorosamente humano da literatura. A saga e a tragédia de como se constrói o ser humano tem na literatura sua figura privilegiada.

Contudo, é importante que os psicanalistas diferenciemos o que nos oferece a literatura para pensar a constituição do sujeito como um exercício diferente da psicanálise aplicada, por exemplo, como ferramenta da crítica literária. Neste sentido, os analistas em formação dentro da Sociedad Psicoanalítica de México, durante seu último ano de treinamento, elegem uma obra literária e realizam um exercício de psicanálise aplicada onde constroem um interpretação de algum dos personagens da peça a partir da perspectiva psicanalítica.

2- Como a literatura de ficção influi em seu trabalho como psicanalista?

Como disse antes, a construção do ser humano moderno se tece a partir da literatura, não é casual então terem acusado Freud, e ele mesmo o reconhecia, de que sua histórias clínicas pareciam romances. O romance familiar do neurótico se confunde com o destino de Pedro Páramo e os sonhos do coronel Buendía. Ultimamente, o jogo virou, pois agora chegam a nossos consultórios analisandos com uma pobre capacidade de simbolizar e funcionam com um pensamento operativo; ante essa realidade clínica, a literatura nos serve como acervo, uma espécie de construção compartilhada com o outro.

Por exemplo, descrevi em um trabalho[1] a sensação de vazio que provocava em mim o encontro com o pensamento operativo de um analisando; esse vazio foi preenchido pela recordação pessoal de minhas leituras infantis de livros de ficção científica, que foram as primeiras ligações que nos permitiram construir um continente que desse sentido simbólico a nosso intercâmbio.

Minha experiência clínica e minhas próprias elaborações teóricas me aproximarão do trabalho de Antonino Ferro e de Maria Cecília Pereira da Silva, onde o analista se oferece como eixo da construção narrativa para que o paciente comece a tecer sua própria história. Diante dos casos graves, o analista empresta sua função narrativa ao paciente que se torna nele eixo do vínculo que se estabelece.

Sem dúvida, essa construção depende em boa medida da capacidade do analista para imaginar histórias, vaso comunicante com o prazer e a dor da criança que foi o analista; a função narrativa está atravessada pela literatura, a mesma que delineia nossa capacidade de simbolizar os elementos beta que nos oferecem os analisandos. Portanto, é importante que o analista esteja conectado com o acervo literário de sua época.

3- Que obra ou autor o inspirou a ser mais criativo em seu trabalho?

Em minha infância, a literatura de ficção científica, mas também as aventuras de Emilio Salgari (1862-1911) e Julio Verne (1828-1905), por exemplo. Minha mente ainda abriga piratas e naves espaciais. Agora pesam os autores que falam da impossível ilusão de comunicação como Samuel Beckett (1906-1989). E sempre, sempre, Shakespeare (1564-1616), que foi um dos inventores da subjetividade ao fazer com que seus personagens se questionassem se havia algo dentro deles mesmos.

Aos candidatos à psicanalista, recomendo-lhes que não se sintam oprimidos pela suposta alta cultura dos analistas velhos. Somos analistas da época que nos coube viver e, portanto, vocês têm modelos diferentes daqueles que necessitam falar, por exemplo, o cinema e as séries de televisão que, embora sejam baseados nos clássicos literários, narram desde uma ótica contemporânea as problemáticas atuais dos pacientes.


[1] “Esa leve voz que contiene”, Prêmio Avelino González 2015.


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