Coordenação de Infancia y Adolescencia – Vidas Marcadas

Queridos colegas

Este manifesto, está sendo construído pela Área de Infância e Adolescência da Fepal.

Gostaríamos que fosse amplamente divulgado e debatido, de modo a ser construído pelo coletivo.

Aguardamos as sugestões!

Leiam a seguir!

Vidas Marcadas

Sobre cada niño se debería poner un cartel que dijera:

Tratar con cuidado, contiene sueños”

Mirko Badiale (filósofo e escritor)

A verdade histórica das crianças e adolescentes, que desde o nascimento vivem maus tratos, fome, miséria, invisibilidade ou injúrias sociais graves, necessita ser assumida como traumática e acolhida pela psicanálise como objeto de preocupação.

Freud destaca que toda a experiência primitiva, a qual a criança ainda não tem condições de dar sentido, exige ser significada em algum momento posterior. Para isso, se faria necessário um período de incubação ou latência, no qual o evento ficaria esquecido até um novo acontecimento surgir, permitindo a reemergência do primeiro. Este período refere-se ao tempo necessário para a revivência do trauma a posteriori.

Bebês, crianças e adolescentes que são injustiçados socialmente, sofrem repetidas violências insuportáveis na ordem do real. Embora deva-se avaliar caso a caso, pode-se supor a existência de uma lógica temporal diversa do exposto sobre o trauma na teoria freudiana. Inexiste o período de latência. Os traumas são acumulativos e se repetem infinitamente. 

Essa realidade obstrui em graus variáveis a constituição da subjetividade e os recursos representacionais simbólicos de si e do mundo. A condição de Ser fica deslegitimada, impondo-se o rompimento de laços sociais e a desfiliação na cultura em uma inevitável gradiência de efeitos sobre os sujeitos. Tais efeitos incluiriam desde a apatia até graus extremos de frieza e violência.

A América Latina requer terapêuticas psicológicas urgentes voltadas para os bebês, crianças e adolescentes que são atingidos por este drama. Não mais é possível se pensar apenas em medidas preventivas. Este trabalho precisa ser estruturado de forma transdisciplinar, convocando a atenção de instituições públicas e privadas, que se comprometam a administrar projetos sociais envolvidos com essa realidade. 

Como a psicanálise está implicada com estas questões? Podemos contribuir com:

– o referencial teórico;

– a escuta clínica disponível a compreender a dor, as éticas diversas, os códigos e os valores, que permeiam as diferentes histórias de vida;

– as ferramentas que nos aproximam das políticas públicas;

– a constituição de grupos de escuta, rodas de conversa;

– o olhar respeitoso, sensível às lógicas desconhecidas por nós;

– a disposição a aprender com a experiência dos que habitam diferentes territórios.

Essa contribuição permitirá gerar alguma transformação. Acreditamos que exista um potencial de saúde imponderável no ser humano, mesmo com histórias dramáticas. Contamos com este potencial.

Temos compromisso com toda situação que gere sofrimento psíquico e não podemos mais cruzar os braços frente à dor da Infância e da Adolescência em situações de marcada injustiça social. 

Essas crianças são nossas! Filhos da América Latina!

Sociedad Iberoaméricana de Salud Mental en Internet

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